Segunda-feira, Fevereiro 23, 2026
Astronomia

Como será a vida na nave que levará o ser humano de volta à Lua?

A NASA concluiu há poucas horas com êxito os testes do foguetão SLS para a missão Artemis II. Em Março, durante dez dias, quatro astronautas vão viver num micro-lar de nove metros cúbicos a caminho do único satélite natural da Terra.

Se tudo correr conforme o calendário previsto, será em Março de 2026 que a missão Artemis levará quatro astronautas – Reid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch, da NASA, e Jeremy Hansen da Agência Espacial Canadiana – a orbitar novamente o nosso satélite natural. O quarteto não descerá à superfície, mas a sua viagem marcará um ponto de inflexão: o regresso à órbita lunar com tecnologia do século XXI.

nave Orion será o seu lar durante uma viagem de aproximadamente 1,1 milhões de quilómetros ao longo de dez dias. Um espaço mínimo, pressurizado e milimetricamente projectado, no qual os quatro contemplados deverão conviver, trabalhar, dormir e exercitar enquanto flutuam em microgravidade. Viver na Orion será algo como habitar uma carrinha camper futurista suspensa no vazio.

O “APARTAMENTO” onde viverão: nove metros cúbicos em direcção ao infinito.

O módulo tripulado da Orion oferece cerca de nove metros cúbicos habitáveis, um volume comparável ao interior de duas carrinhas. Quatro pessoas partilharão esse espaço durante dez dias em torno da Lua. Após o lançamento, dois dos assentos dobram-se para libertar o centro da cabina e ganhar mobilidade num ambiente onde cada centímetro conta.

Atrás da cápsula encontra-se o Módulo Europeu de Serviço, desenvolvido pela Agência Espacial Europeia (ESA). Não é habitável, mas é essencial: fornece água, oxigénio, azoto e energia eléctrica, tornando-se o pulmão e o coração energético da nave. Conforme explica a própria ESA na sua documentação técnica sobre o Módulo Europeu de Serviço, este sistema é fundamental para garantir a vida e a propulsão no espaço profundo.

Dormir flutuando e encontrar intimidade no vazio.

Não há camas na Orion. Os astronautas dormirão cerca de oito horas por dia dentro de sacos-cama presos às paredes ou presos com correias. Na ausência de gravidade, o corpo não precisa de colchão: ele flutua. Para simular a noite, as janelas serão cobertas com painéis opacos que bloqueiam a luz solar e reduzem os reflexos, transformando a cabine numa espécie de dormitório escuro suspenso no espaço.

Os sacos-cama incluem pequenos orifícios para usar tablets antes de dormir, um gesto quotidiano que traz uma certa sensação de normalidade. Num espaço tão exíguo, manter rotinas pessoais é fundamental para a estabilidade psicológica.

Higiene sem água corrente e cozinha orbital

Na Orion, não há duches. A higiene diária será feita com toalhas húmidas, sabonete e champô que não requerem passagens por água. Tudo acontece num pequeno módulo de higiene com portas que oferecem relativa privacidade. A sanita, compacta e adaptada à microgravidade, incorpora sistemas específicos para a gestão de resíduos, um desafio técnico constante no espaço.

A alimentação baseia-se em rações espaciais leves, concebidas para minimizar o desperdício. Muitos alimentos são reidratados com água do sistema a bordo e aquecidos através de dispositivos simples. Dentro da Orion, comer não é um prazer gastronómico, mas uma operação precisa dentro de um ecossistema fechado.

O menor ginásio do universo

A cabine principal também é o centro de comando. Um sistema de cockpit de vidro com ecrãs digitais permite pilotar a nave, supervisionar parâmetros e realizar experiências. Parte essencial da missão Artemis II será verificar o funcionamento correcto de todos os sistemas no ambiente do espaço profundo, além da órbita terrestre baixa.

Cada astronauta dedicará cerca de 30 minutos por dia ao exercício físico. A microgravidade provoca perda de massa óssea e muscular, um fenómeno amplamente documentado pela NASA e apoiado por estudos sobre desmineralização óssea no espaço. Sem contramedidas, o corpo humano enfraquece rapidamente.

Para responder a este desafio, a Orion incorpora um dispositivo compacto do tipo flywheel (volante de inércia) instalado sob uma escotilha lateral. Funciona como um ioió: oferece resistência proporcional ao esforço do astronauta, até cerca de 180 kg. Com uma barra, correias para os pés e um arnês conectado ao cabo, os astronautas a bordo podem simular remo, agachamentos, peso morto, puxadas explosivas ou flexões de braço. Um único aparelho que substitui toda uma academia terrestre.

O objectivo médico é claro: preservar músculos e ossos, especialmente nas pernas, quadril e costas, as áreas mais afectadas pela ausência de gravidade. Especialistas em exercício da NASA e da Agência Espacial Canadiana ajustam as rotinas específicas para cada missão.

Comunicações, ruído e o pulsar constante do espaço profundo.

A nave Orion também será um nó de comunicações. Graças à Rede de Espaço Profundo, os astronautas poderão enviar imagens, vídeos e mensagens para a Terra, além de manter contacto com as famílias. Microfones, auscultadores, tablets e computadores portáteis fazem parte do equipamento diário.

O interior não será silencioso: ventiladores e sistemas de suporte de vida gerarão um zumbido constante. No entanto, a acústica foi estudada para que o som seja tolerável durante missões prolongadas.

No geral, a vida na Orion será mais parecida com um acampamento num minúsculo apartamento tecnológico e flutuante do que viajar num cruzeiro espacial. Será uma experiência compacta, meticulosamente planeada e exigente. E, no entanto, no meio deste habitáculo reduzido, quatro seres humanos contemplarão pelas janelas a silhueta prateada da Lua a aproximar-se lentamente.

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