
Novo CEO da Apple prepara mudanças na equipe criativa para devolver protagonismo ao design industrial
John Ternus, que assumirá o comando da Apple em 1º de setembro, já começou a desenhar mudanças importantes dentro da empresa. Segundo informações publicadas por Mark Gurman, da Bloomberg, o executivo pretende reorganizar o time de design industrial e devolver ao setor uma relevância que, aos poucos, foi perdida nos últimos anos.
A proposta de Ternus é clara: recolocar o design no centro da estratégia da Apple. Em uma reunião interna com funcionários, o futuro CEO afirmou que a empresa seguirá investindo nessa área, já que o design continua sendo uma parte essencial da identidade da marca.
Além disso, em entrevista à Bloomberg, Ternus reforçou essa visão ao afirmar que muitos consumidores consideram um produto da Apple como o objeto mais bonito que possuem. Por isso, segundo ele, a companhia pretende preservar esse padrão.
Influência do design diminuiu durante a gestão de Tim Cook
A perda de força da área de design começou a ficar mais evidente em 2015, quando Jony Ive, um dos nomes mais importantes da história da Apple, deixou de atuar diretamente na rotina do time para assumir o cargo de diretor de design. Mais tarde, em 2019, ele saiu da empresa e fundou a LoveFrom, estúdio que atualmente também trabalha com a OpenAI.
Com a saída de Ive, a liderança criativa foi assumida por Evans Hankey, profissional que já atuava ao lado dele no estúdio de design. No entanto, a decisão da Apple de não incluir Hankey na equipe executiva foi vista como um sinal de perda de prestígio da área dentro da companhia.
Na prática, Hankey passou a responder a Jeff Williams, então diretor de operações da Apple. Embora fosse um nome forte na empresa, Williams não tinha histórico ligado ao design, o que reforçou a percepção de mudança na hierarquia interna.
Saídas de executivos aprofundaram a crise no estúdio de design
O cenário se agravou após o fim do contrato de consultoria de Jony Ive, em 2022. Pouco depois, Evans Hankey também deixou a Apple, o que abriu espaço para uma nova onda de saídas no time criativo.
Entre os nomes que deixaram a empresa estão Bart Andre, um dos designers mais antigos da Apple, além de Colin Burns, Peter Russell-Clarke e Shota Aoyagi. Bart Andre, por exemplo, trabalhava na empresa desde 1992 e se aposentou em fevereiro de 2024.
Enquanto isso, Hankey seguiu outro caminho. Ela se uniu a Jony Ive na criação da startup io, focada em hardware com inteligência artificial. A empresa acabou sendo adquirida pela OpenAI por US$ 6,5 bilhões em 2025.
Mesmo diante desse esvaziamento, Jeff Williams optou por não escolher um novo chefe de design naquele momento. Em vez disso, assumiu o controle direto da área. Segundo Gurman, a decisão foi tomada por receio de que a promoção de um designer interno acelerasse ainda mais as saídas. Ainda assim, o movimento não conteve a debandada.
Apple foi obrigada a reagir após nova sequência de perdas
A situação ficou ainda mais delicada com a aposentadoria de Jeff Williams, em novembro de 2025. A partir daí, a Apple precisou tomar uma decisão que vinha sendo adiada.
A escolhida foi Molly Anderson, designer conhecida por sua atuação no Apple Watch e pela proximidade com Evans Hankey. Em março de 2026, Anderson foi promovida ao cargo de vice-presidente de design industrial. Ainda assim, a Bloomberg afirma que ela nunca havia liderado uma equipe antes de assumir essa função.
Além do setor de design industrial, a Apple também perdeu força no design de software. Em dezembro de 2025, Alan Dye, responsável pela área de interface desde 2015, deixou a empresa para assumir a direção de design da Meta. Outros profissionais da equipe seguiram o mesmo caminho.
Falta de renovação passou a aparecer nos produtos da Apple
Segundo a Bloomberg, o impacto dessa perda gradual de talentos já pode ser percebido no portfólio da empresa. O iPhone, por exemplo, manteve praticamente o mesmo visual por cerca de cinco anos até a geração mais recente.
O mesmo aconteceu com outros produtos da marca. Apple Watch, AirPods e Macs vêm repetindo linhas visuais parecidas há quase uma década. Houve exceções pontuais, como o Watch Ultra e o MacBook Neo, mas a sensação geral é de pouca renovação no design industrial da companhia.
Ternus já acompanha o time de design antes de assumir o cargo
Mesmo antes de se tornar CEO, John Ternus passou a supervisionar o time de design no fim de 2025. Desde então, ele tem dedicado parte considerável do seu tempo à equipe, justamente para preparar a transição que será oficializada em setembro.
A própria Apple já começou a associar a imagem de Ternus a projetos recentes de design, como o MacBook Neo. No entanto, o primeiro grande teste de sua gestão deve vir com um lançamento de peso: o iPhone dobrável, previsto para o segundo semestre.
Desafio do novo CEO vai além do visual dos produtos
Apesar da prioridade dada ao design, a missão de Ternus não será simples. A Apple ainda precisa encontrar uma liderança capaz de reconstruir o estúdio criativo, fortalecer o setor dentro da estrutura da empresa e atrair novos talentos de alto nível.
Ao mesmo tempo, o futuro CEO terá de lidar com outros problemas estratégicos. Entre eles estão o atraso da Apple no mercado de inteligência artificial e o aumento da pressão regulatória da União Europeia sobre a companhia.
Dessa forma, a recuperação da força do design pode ser apenas uma parte de um desafio bem maior. Ainda assim, tudo indica que John Ternus quer iniciar sua gestão resgatando justamente um dos elementos mais marcantes da história da Apple: a capacidade de transformar design em diferencial competitivo.



